Branca ou negra, gorduchinha, magrinha, baixinha ou gigante, serás meu amor
Sérgio Murilo foi um grande nome da primeira geração do rock brasileiro. Em 1960, ele gravou uma versão para o português de Marcianita. Fala de um amor que poderia ocorrer, no ano 70, entre um homem da Terra e uma mulher de Marte.
Em 1968, numa incrível releitura psicodélica, Caetano Veloso e Os Mutantes regravaram Marcianita. Apenas dois anos, e não mais dez, separavam o encontro do terráqueo com a marcianita – sonho ingênuo da ficção, posto que não há marcianitas.
Faz muito tempo – 56 anos – que 1970 se foi. Agora em 2026, com a missão Artemis II, os voos à Lua foram retomados, o homem deve voltar a pisar no solo lunar em 2028, e se projeta, para 2037, uma provavel viagem inaugural do homem a Marte.
A corrida espacial sempre mexeu com minha sensibilidade. Desde a infância, na década de 1960. Meu pai era astrônomo amador e rastreou satélites para a Nasa. Naquele tempo, em plena Guerra Fria, era Estados Unidos versus União Soviética.
Mercury, Gemini, Apollo – as naves americanas. Vostok, Soyuz – as naves soviéticas. Cabo Canaveral, nos Estados Unidos. Base de Baikonur, na União Soviética. Astronautas, os americanos. Cosmonautas, os soviéticos. Era absolutamente fantástico!
As “tais fotografias” da Terra vista da Lua, Caetano Veloso viu em janeiro de 1969, numa revista, quando estava preso pelo regime militar. Foram feitas pela Apollo 8 no Natal de 1968. A Apollo 8 foi pioneira ao voar sobre o lado oculto da Lua.
Em 2026, astronautas da missão Artemis II voaram sobre o lado oculto da Lua. Eu tinha nove anos em 1968. Agora, estou prestes a completar 67. Vivi a emoção de testemunhar, de ser contemporâneo dessas duas missões da corrida espacial.
Os voos espaciais me trazem lembranças de grandes êxitos, tanto dos Estados Unidos quanto da União Soviética. Mas não só êxitos. No meio deles, há as tragédias. Os Estados Unidos perderam 17 astronautas. Os soviéticos perderam quatro cosmonautas.
Se Gagarin, pela União Soviética, e Glenn, pelos Estados Unidos, foram heróis por seus voos pioneiros, Grisson, White e Chaffee, pelos Estados Unidos, e Komarov, pela União Soviética, foram os primeiros mártires da conquista do espaço.
Sábado passado, 11 de abril de 2026, vi a entrevista coletiva da tripulação da missão Artemis II. Três homens e uma mulher. Em particular, a fala da astronauta Christina Koch foi comovente. Teve um grau de sensibilidade que só as mulheres têm.
O conceito de tripulação. O que é uma tripulação. Tripulantes dentro de uma nave espacial. Tripulantes, ampliando o conceito, vivendo num planeta. Nós, os homens e as mulheres da Terra. Nós, tripulantes. A Terra, nossa nave-mãe.
Chris e seus companheiros de missão cuidaram da Orion, que levou o grupo à Lua e trouxe de volta à Terra. E nós, estamos cuidando da nossa nave? Astronautas representam a humanidade. Políticos, por tantas vezes, encarnam a desumanidade.
O projeto é Artemis. A missão que acabamos de testemunhar é Artemis II. A nave é Orion. A tripulação decidiu rebatizá-la. Orion agora é Integrity. Integrity, Integridade. Um nome muito apropriado. Integridade. Como precisamos dela. E como anda escassa.