‘Fui ignorando os sintomas’, diz paraibana de 20 anos após diagnóstico de linfoma
Quando iniciou a quimioterapia, na última sexta-feira (30), Maisy Peixoto já sabia que aquele momento não havia começado ali. Aos 20 anos, a estudante paraibana passou a compreender que sintomas ignorados ao longo de muitos meses faziam parte de um processo que só se revelou por completo com o diagnóstico de linfoma.
Moradora de Esperança, no Agreste da Paraíba, Maisy cursa odontologia e está no sétimo período da graduação. A rotina intensa, dividida entre aulas, estudos e compromissos acadêmicos, fez com que os primeiros sinais fossem sendo diluídos no dia a dia. O cansaço constante parecia compatível com a carga de horários. As mudanças no corpo não despertaram, de imediato, preocupação.
“Eu associava tudo à minha correria do dia a dia. Na época, estudava tanto de manhã quanto à noite, então fui ignorando os sintomas, principalmente o cansaço extremo. Sempre pensei muito positivo, mas quando vi que tinha a possibilidade, e como estudo e via muito, tive quase certeza do que era”, contou.
LEIA TAMBÉM:
Em 2024, dois anos antes do diagnóstico, Maisy passou por oscilações significativas de peso. Em curtos períodos, chegou a perder até oito quilos e, semanas depois, recuperava tudo. Naquele momento, a mudança não foi encarada como um sinal de alerta. Só mais tarde, com o diagnóstico em mãos, esses episódios passaram a fazer sentido.
Outro sinal apareceu em maio de 2025. Ao acordar, ela percebeu os olhos inchados. Como faz uso de lentes de contato, procurou uma oftalmologista com receio de uma infecção ocular. A avaliação apontou uma inflamação em um gânglio, e uma pomada foi prescrita. O inchaço diminuiu, e a rotina seguiu sem alterações.
Meses depois, em agosto, ao se maquiar, Maisy notou uma pequena bolinha no pescoço. O sinal parecia isolado. Foram feitos dois ciclos de anti-inflamatório, mas não houve melhora. Em setembro, novas alterações surgiram: manchas nas pernas, sem causa aparente.
“Foi confuso e angustiante. Ao mesmo tempo em que havia um alívio por não ser algo grave naquele momento, também existia a frustração de não ter respostas. A incerteza cansa mais do que o diagnóstico em si”, relatou.
A virada aconteceu dentro da própria faculdade. Durante um atendimento clínico, um professor percebeu que não se tratava de um único caroço. Havia vários gânglios visíveis no pescoço. A orientação foi imediata: interromper o atendimento e realizar uma ultrassonografia.
Em dezembro de 2025, após a realização de uma biópsia, veio a confirmação: linfoma de Hodgkin em estágio 2, com acometimento no pescoço, na clavícula e no tórax.
“Passou um misto de sentimentos: medo, choque e muitos ‘e se…’. Pensei no tempo em que normalizei sinais, mas entendi que não adiantava me culpar. O mais importante era finalmente saber o que estava acontecendo e começar o tratamento. Doença não escolhe idade”, disse.
Quando os sinais do corpo precisam de atenção
Os sintomas vividos por Maisy são comuns em diversas situações clínicas e, na maioria dos casos, estão associados a infecções, especialmente virais, explica a hematologista Tamíris Baptista. Segundo ela, nem todo aumento de linfonodos está relacionado a câncer, o que contribui para diagnósticos tardios em casos como esse.
A médica explica que existem diferentes tipos de linfoma, sendo os mais conhecidos o linfoma de Hodgkin e o linfoma não Hodgkin. Enquanto o não Hodgkin é mais frequente a partir dos 60 anos, o linfoma de Hodgkin pode surgir mais cedo, com maior incidência entre adolescentes e adultos jovens.
“O linfoma de Hodgkin costuma apresentar um pico entre os 15 e os 40 anos. Mas isso não significa que a doença siga regras fixas. Cada organismo responde de uma forma”, explicou a hematologista.
Tamíris reforça que a persistência dos sintomas é um dos principais sinais de alerta. Gânglios aumentados por mais de duas semanas, especialmente quando associados a fadiga, febre ou perda de peso, devem ser investigados.
“A avaliação médica se torna necessária quando esses sinais não desaparecem e passam a vir acompanhados de outros sintomas sistêmicos”, orientou.
Além disso, suor noturno excessivo, cansaço contínuo, tosse ou dificuldade para respirar também podem estar presentes. Para a médica, observar o próprio corpo e buscar investigação quando algo foge do padrão é fundamental para um diagnóstico mais precoce.
Atualmente, Maisy segue em tratamento, que inclui dois ciclos de quimioterapia e 25 sessões de radioterapia. A estudante afirma seguir tranquila, apoiada nos conhecimentos adquiridos na graduação e na forma como passou a encarar o próprio processo.