As Copas do Mundo da minha vida
1930, 1934, 1938, 1950, 1954, 1958, 1962, 1966, 1970, 1974, 1978, 1982, 1986, 1990, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018, 2022.
De 1930, no Uruguai, a 2022, no Catar, a Copa do Mundo foi realizada 22 vezes. A de agora, 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, é a de número 23.
O Brasil ganhou cinco: 1958 (Suécia), 1962 (Chile), 1970 (México), 1994 (Estados Unidos) e 2002 (Coreia do Sul/Japão). E foi vice em 1950 (Brasil) e em 1998 (França).
Não gosto de futebol, não acompanho, não torço por ninguém, mas a Copa do Mundo, notável marcador de tempo, está na minha memória afetiva.
A Copa do Mundo foi realizada seis vezes antes de 1959, o ano em que nasci. Sou, portanto, contemporâneo de 16 mundiais e estou testemunhando mais um.
Quando nasci, fazia um ano que o Brasil conquistara sua primeira Copa do Mundo. Na conquista do bicampeonato, em 1962, eu estava com três anos.
1962. Minha mãe contava que Dona Pequena, a velhinha da casa ao lado, morreu no dia da final. Dona Pequena me dava bolachas, e eu a chamava de Quequena.
Naquele 17 de junho, a rua estava mais movimentada, a vizinhança toda no velório. Minha mãe achou cedo para me falar sobre morte. Disse que era a Copa do Mundo.
Tenho uma vaguíssima lembrança – um instantâneo – da minha mãe dizendo: “É a Copa do Mundo”. Talvez seja só uma imagem que criei depois.
1966. A Copa do Mundo ainda era pelo rádio. A primeira depois que comecei a estudar. O Brasil fracassou. A final foi num sábado, e não num domingo, como costuma ser.
1970. A primeira transmitida ao vivo pela televisão, ainda em preto e branco. Aos 11 anos, vi todos os jogos da melhor seleção que o Brasil já teve.
Havia a Copa do Mundo e havia a ditadura militar. Esta fez uso daquela. A ditadura passou, e a Seleção Brasileira do tri segue viva em nossa memória afetiva.
1974. Havia conflitos na família reunida para ver o Brasil jogar. Uma voz da extrema direita esculhambava Pelé – “negro safado!” – porque ele não foi para a Copa.
Aos 15 anos, eu estava somente a quatro meses de começar a atuar no jornalismo, tentando fazer crítica de cinema no velho Correio da Paraíba.
1978. A Copa do Mundo da Argentina. A Copa do Mundo da ditadura argentina. A Argentina antes de Maradona. Um episódio duvidoso deu a vitória aos anfitriões.
Eu estava às vésperas do vestibular. O mundo vivia a onda da dance music. O Brasil caminhava para a abertura política. Logo, logo, os exilados estariam de volta.
1982. Uma grande seleção, uma derrota traumática. Os flamenguistas da era Zico dizem que a Seleção Brasileira de 1982 era melhor do que a de 1970. Não era.
Eu estava na universidade, já atuava profissionalmente no jornalismo, e o Brasil voltava a eleger seus governadores pela via direta. A ditadura estava nos estertores.
1986. A Copa do Mundo de Maradona. A mão de Deus e o jogo espetacular contra a Inglaterra. Zico perdeu um pênalti, e a França tirou o Brasil da competição.
A ditadura militar acabara. Tancredo Neves morrera. José Sarney era o presidente da transição. Com o Plano Cruzado, o governo ganhou todas na eleição de 1986.
1990. O time de Lazaroni. Um Brasil medíocre, que a Argentina eliminou no primeiro jogo da segunda fase. Foi minha primeira Copa do Mundo na TV Cabo Branco.
Um ano antes, os brasileiros voltaram a escolher o presidente pelo voto direto. A direita venceu com Collor, um “filhote da ditadura” depois defenestrado pelo impeachment.
1994. A Copa do Mundo do tetra. Ganhou, mas não encantou. Ou encantou quem não viu 1970. Uma vitória nos pênaltis dá muita saudade do 4 x 1 da final do tri.
Minha mãe morreu durante a Copa do Mundo do tetra. No velório, as pessoas pediam desculpas porque queriam falar de futebol na véspera de um jogo decisivo.
A primeira Copa do Mundo da minha vida, a de 1962, está associada a uma morte. A de 1994, à morte da minha mãe. A Copa do Mundo é marcador de tempo.
2002. A Copa do Mundo do penta. Acordei no final da madrugada para ver o Brasil enfrentar a Inglaterra. Era pura nostalgia daquele 1 x 0 de 1970 no México.
2002. O Brasil redemocratizado. Entre o final do segundo mandato de FHC e a eleição de Lula. Era difícil imaginar o retrocesso que nos aguardava, alguns anos depois.
Futebol de resultado. Tetra em 1994. Vice em 1998. Penta em 2002. Depois, nunca mais. No caminho, a vergonha do 7 x 1 no jogo contra a Alemanha, em 2014.
Copa do Mundo como marcador de tempo. A primeira depois, a última antes. A de 2006 foi a última do meu irmão, que adorava futebol. Também do meu pai, que detestava.
A Copa do Mundo se mistura com o frio junino, com o São João que já foi mais bonito, com os meus aniversários, com a lembrança de quem não está mais aqui.
A Seleção Brasileira de 1970 nos representava. A Seleção Brasileira de 1982 nos representava. A Seleção Brasileira não nos representa mais. Já faz algum tempo.
A cor amarela foi sequestrada pela mais nefasta extrema direita, mesmo que a ela não pertença. Foi parcialmente recuperada, mas ainda falta alguma coisa.
“Viva Pelé do pé preto!, Viva Zagallo da cabeça branca” – Gil cantou em 1974. A Copa do Mundo de 2026 é a primeira sem a presença física, entre nós, de Pelé e de Zagallo.
O que nos reserva a Copa do Mundo de 2026? O Brasil vai perder? O Brasil vai ganhar? Neymar vai jogar? O que ela vai deixar para o acervo da nossa memória afetiva?
O Brasil dos impasses. O Brasil cindido. O Brasil com seu pior parlamento. O Brasil dos milicianos e dos narcotraficantes. O Brasil dos feminicídios. O Brasil desigual, sem saúde e sem segurança. O Brasil dos jogadores milionários que não estão nem aí para o Brasil.
Vejo o Brasil jogar sem ansiedade pela vitória e sem sofrimento na derrota. Vejo na Copa do Mundo o marcador de tempo. Do meu tempo. Essa de 2026 pode ser a última.