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Áudios mostram negociação de drogas e armas por agente em esquema envolvendo delegado preso

Investigador da Polícia Civil da Paraíba Everton Aires, conhecido como Bomba.. Reprodução/TV Globo

Áudios da investigação que culminou na prisão do delegado da Polícia Civil da Paraíba, Braz Morroni, e de outros dois agentes da corporação mostram a relação entre os investigados e grupos criminosos, incluindo a negociação de drogas apreendidas.

O secretário de Segurança Pública da Paraíba, Jean Nunes, afirmou que a investigação durou mais de um ano e que foram utilizados mais de 40 mil áudios durante as apurações.

“Mais de um ano de investigação, mais de 40 mil áudios analisados pela Polícia Civil e Gaeco. A gente tá combatendo a chegada do Comando Vermelho no nosso estado, e agentes de segurança pública associados com traficantes alimentam essa facção para que possam retornar as drogas para as ruas. É uma gravidade importante de considerar”, disse.

A maioria dos áudios é de Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido como “Bomba”, que é apontado como principal operador do esquema criminoso. Nos áudios, ele cita outros investigados, incluindo o delegado Braz Morroni, que também foi preso.

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Indícios da participação no tráfico

Em vários trechos dos áudios, Everton Rychelyson da Silva Aires, o Bomba, fala sobre drogas disponíveis, incluindo maconha e cocaína. Em um deles, em que não é possível definir com quem o agente está falando, ele cita drogas armazenadas em sua própria casa.

“Essa parte todinha de natural, essa parte floripa [ um tipo de maconha], essa parte toda aí eu deixei com o meu menino ali. Aí, meio quilo de pó, e o pó é bom, visse? E o haxixe eu deixei separado pra deixar contigo (…). Tá lá em casa”.

O agente também menciona a suposta proteção a suspeitos de tráfico de drogas para evitar que fossem flagrados em fiscalizações. Em um dos áudios enviados para Victor, Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido como “Bomba”, relata que precisou se deslocar, durante o serviço, até o local onde uma pessoa transportava drogas após agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) levantarem suspeitas sobre a carga.

“Esse povo é burro, Victor. Um abestalhado, semana passada, 15 quilos de skunk no carro, vinha na BR, esqueceu a bateria ruim, foi sair com o carro sabendo que estava ruim, o carro quebrou na BR. Liga para a gente desesperado, que a PRF passou do outro lado da pista e se ligou nele. Aí lá vamos nós correndo. A sorte é que a gente estava na rua. Quando a gente foi lá, veio um menino da PRF. Aí a gente ‘é colega da gente, aqui a gente resolve, pronto…”. Aí foram embora, se não tinha rodado”.

No áudio, Everton fala com João Wicttor Alves de Lima, conhecido como “Vitor”, que a Justiça coloca como responsável por armazenar, refinar e comercializar drogas fornecidas pelos policiais, além de realizar transferências financeiras para integrantes do esquema.

Participação de delegado preso

Em vários áudios obtidos pela investigação, Bomba cita o delegado Braz Morroni como parte do esquema. Em um deles, o agente cobra o dinheiro de uma droga repassada e diz que o delegado perguntou quando sairia o pagamento. Neste áudio, não é possível saber com quem o agente está falando.

“Jovem, veja com nossa bolinha de ouro lá quando é que ele vem com o dinheiro da branca que a gente passou na semana passada. (…) Sábado fez oito dias; meu bom dia hoje do delegado foi perguntando desse dinheiro”.

Em outro momento, o investigador da Polícia Civil fala com Victor sobre a negociação de uma venda de loló e cita o delegado entre os que dividiriam o lucro.

“Victor, quando tu estiver em casa, vê mais ou menos quantos litros de loló tem lá, faz uma mídiazinha, um vídeo do bujão, tal, pra mostrar o loló, que eu vou mandar pro menino aqui, porque ele tá com uma linha no presídio, pra ver se a gente consegue vender esse loló. Eu disse que, se ele vendesse, a gente dividia pra cinco. O que tiver aí, a gente divide entre eu, tu, mão branca, o delegado e ele”, finalizou.

O material ainda traz, em outro momento, Bomba negociando com um integrante do esquema para não repassar ao delegado todo o dinheiro acordado.

“Daquele dinheiro que a gente tem que dar pra Braz, ao invés de dar tudo de uma vez, que ele não sabe que a gente vendeu tudo, né? Eu digo que a gente vendeu metade, aí, em vez de dar setenta e dois, a gente dá só trinta e seis (…). Aí a gente segura a mão uns trinta, quarenta dias para frente para dar o resto dele”.

Logística do esquema criminoso

Áudios interceptados pela investigação revelam detalhes sobre a logística do esquema criminoso. Em um trecho, Bomba demonstra preocupação com o controle e a guarda de uma mercadoria.

Na conversa, em que também não é possível saber quem é o interlocutor, ele afirma confiar plenamente na pessoa, mas alerta para os riscos de o material ser repassado a terceiros, o que, segundo ele, quebraria a “cadeia de custódia” e abriria margem para possíveis trocas ou adulterações. Ainda de acordo com o áudio, Bomba afirma que esse tipo de situação poderia gerar conflitos graves, chegando até a resultar em mortes.

“Você é 100% de minha confiança; estar na sua mão é o mesmo que estar na minha, está dentro da cadeia de custódia. Saiu da sua mão, foi para a mão de um terceiro, quebrou a custódia. Ali a gente já não sabe se o que ele devolve é a mesma coisa do que a gente passou, porque, no caso da gente, a gente conhece a mercadoria, conhece mesmo. Se ele mandar uma coisa que não foi o que a gente mandou, a gente vai ver e vai conhecer, só que isso dá um b.o do caralho, isso dá até morte”.

Em mais um áudio obtido, o agente conversa sobre uma suposta articulação envolvendo o delegado Braz Morroni e a apreensão de armas de fogo. Na gravação, ele relata ter falado com o delegado e afirma que os dois, junto com um terceiro agente, iriam até a Central de Polícia para verificar informações sobre quatro armas. Em seguida, sugere que uma delas poderia ser atribuída a um suspeito de assalto, enquanto as demais teriam outro destino.

“Pronto, eu falei com Braz agora, ele disse que cola com a gente. Oito horas a gente vai para a Central, agrupa com ele lá e nós três vamos. Eu disse que pode ser que tenha quatro armas. Eu perguntei a Sheldon quais eram essas armas. Ele disse que não sabe, vai procurar saber, mas, se tiver, pode ser que o cabra pegue o cabra que atirou em Sérgio e ainda pegue a arma do assalto. A gente bota esse fresco na cadeia com a arma, e as outras a gente dá destino”.

Outro diálogo revela a logística da distribuição de entorpecentes. Bomba fala com José Alexandrino de Lira Júnior, conhecido como Húnior Liram, que, segundo as investigações, tem a atuação principalmente voltada para o Sertão da Paraíba. Na fala, o agente cita Diego Ernesto Pereira Barros, ex-policial militar.

“Júnior, a gente vai fazer o seguinte: a gente está escalado em uma operação hoje de madrugada. Para sair agora à noite fica ruim também. A gente vai tirar daqui, vai deixar lá em Ernesto, aí é o tempo que você vai fazendo contato, vai conversando com o povo. Quando for amanhã de manhã, aí você diz se vai querer os 10 ou os 15 que a gente separou aqui, ou se leva tudo. Porque se você disser: ‘eu quero tudo’, a gente vai lá em Ernesto, pega tudo e leva”.