PB INFORMA

Notícias da Paraíba e Nordeste, futebol ao vivo, jogos, Copa do Nordeste

Noticias

Deus te abençoe, Zimmy!

Bob Dylan está fazendo 85 anos neste domingo, 24 de maio de 2026. Na semana que passou, dediquei duas colunas a ele, mas hoje volto a Dylan repostando um texto que escrevi em 2012. Mistura o bardo judeu de Minnesota com Stevie Wonder.

Blowin’ in the Wind é um clássico da canção de protesto. Em 1963, quando Bob Dylan a gravou no álbum The Freewheelin, ela tinha uma força extraordinária. Atravessou o tempo e hoje evoca uma época.

Seria ingenuidade, talvez, continuar acreditando no poder transformador dos seus versos, mas eles não perderam a beleza nem a força poética. Até se tornaram mais bonitos porque agora remetem ao momento histórico em que foram escritos.

É uma canção simples com acordes naturais que qualquer aprendiz conhece. A gravação, de curtíssima duração, tem apenas a voz nasal do autor, seu violão rústico e sua gaita de boca.

Stevie Wonder era um adolescente quando gravou Blowin’ in the Wind, em meados da década de 1960. A voz ainda estava em formação. Não era mais infantil, como quando começou a carreira, mas não tinha atingido os timbres do cantor adulto que o mundo inteiro conheceu mais tarde.

Sua versão da canção de Dylan tira dela o sotaque folk e lhe acrescenta alguns adornos. Ela fica menos crua, menos dura. Tem a sonoridade da Motown, vira soul music.

O original parece um rascunho que foi aperfeiçoado. Wonder pegou Dylan e o submeteu a uma espécie de caderno de caligrafia. Deu mais forma à canção. E, de certo modo, a preparou para o futuro.

Em 1992, Bob Dylan comemorava três décadas de carreira. 30 anos tinham se passado desde que lançara o primeiro álbum na Columbia. Um show em Nova York marcava a data. Dylan e seus amigos subiram ao palco do Madison Square Garden.

E lá estava Stevie Wonder para cantar Blowin’ in the Wind. O ponto de partida não seria mais o original do autor, mas o registro que Wonder produzira na adolescência. Este serviria de base, ofereceria os parâmetros para uma nova releitura.

Melhor, mais forte, mais bonita, mais emocionada. Uma performance que trazia a música para o presente e comentava a sua trajetória ao longo de três décadas, desde o seu lançamento.

Antes de cantar, Stevie Wonder fala. Sua fala soa como se fosse música. Os instrumentos o acompanham. O tema é a relevância daquela canção e a relação que pode ser estabelecida entre ela e os movimentos sociais e políticos das décadas que percorreu.

Há algo de ingênuo no discurso, mas é comovente. Wonder fala como um pastor num púlpito, pregando ao som de uma banda gospel numa igreja da América.

A pregação vai ficando mais alta, os fiéis gritam lá atrás, os instrumentos vão subindo. Até que tudo se transforma em música mesmo: “How many roads…”. É Blowin’ in the Wind, a velha canção de protesto do jovem Bob Dylan.

A melodia lembra o original, mas foi reescrita. Está cheia de variações, de improvisações, de inflexões que ninguém imaginaria ao ouvi-la no registro inaugural do autor.

A letra é a mesma, mas as palavras parecem ganhar novos significados. Wonder passeia com elas pelos timbres da sua bela voz, dos graves aos agudos.

Dialoga com o vocalista da banda, conversa com a plateia. Faz perguntas e ouve respostas. A canção cresce na medida em que é reinterpretada.

O original está guardado em nossa memória afetiva. A versão de Stevie Wonder o recupera, trazendo-o de longe, daquele disco de 1963. Provoca um novo impacto. Não há como descrevê-lo. Só ouvindo.

“Deus te abençoe, Bobby!” – é o que Stevie Wonder diz quando termina de cantar.