Donald Trump pensa que é o dono do mundo?
Já contei outras vezes. Na infância, perguntei à minha mãe o que são símbolos. E ela respondeu que são pequenas coisas que falam sobre coisas grandes.
Seguindo a lição da minha mãe, procuro, em Donald Trump, símbolos que possam traduzi-lo, que me façam entender o que, de fato, o presidente dos Estados Unidos é.
Durante o governo de Jair Bolsonaro, Chico Buarque disse que estávamos sendo governados por loucos. Não sei se loucos, mas, sob Bolsonaro, o Brasil viveu uma experiência que botou o país fora do cânone da normalidade política.
Numa outra perspectiva, é a impressão que Donald Trump transmite nesse seu segundo mandato na Casa Branca. Ele botou os Estados Unidos fora dos caminhos que o império americano trilhava tanto sob republicanos quanto sob democratas.
Vou ficar com um símbolo que talvez seja uma boa tradução do que Trump é. Depois de invadir a Venezuela, sequestrar Nicolás Maduro e sua mulher e levar o casal preso para Nova York, Trump fez uma postagem que não combina com o cargo que ocupa.
Pois é. O presidente dos Estados Unidos foi às redes sociais e publicou um post no qual se autodenominava presidente interino da Venezuela. Achei o episódio tão louco, tão inacreditável, tão absurdo, que pensei que se tratava de fake news. Mas não era.
Outro símbolo de que as coisas estão fora da ordem. Não era segredo que Trump queria o Nobel da paz. Afinal, afirma, e está blefando, que acabou com oito guerras.
O Nobel foi para a líder oposicionista da Venezuela, Maria Corina Machado. Maria Corina quis transferir o prêmio para Trump. O comitê organizador do Nobel disse que não era possível. Ela, então, o fez simbolicamente, dando a medalha ao presidente americano.
Se não é normal Maria Corina dar sua medalha a Trump, ainda menos normal é Trump aceitar o presente. A foto oficial do governo americano registra a completa maluquice.
Trump quer o Panamá. Trump quer o Canadá. Trump quer a Venezuela. Trump quer comandar os destinos de Gaza. Trump está obcecado pela Groenlândia.
Sob Trump, o Golfo do México deixa de ser Golfo do México. Sob Trump, o Kennedy Center, inaugurado há mais de 50 anos, passa a ser Trump-Kennedy Center. Logo, Trump vai querer estar junto dos pais da pátria esculpidos no Monte Rushmore.
Dizem que é pragmatismo. Que Trump anuncia o absurdo para chegar no possível. Seja o que for, Donald Trump não ameaça somente a sólida democracia que os Estados Unidos edificaram. Donald Trump é uma ameaça ao mundo, à humanidade.
Vou fazer 67 anos e já vi os Estados Unidos nas mãos de democratas e republicanos. Vi Johnson, Carter, Clinton, Obama e Biden. Vi Nixon, Ford, Reagan, Bush pai e Bush filho. Todos, melhores ou piores, sempre guiados pela lógica do império americano.
Sempre preferi os democratas. Votaria neles, se fosse americano. Ronald Reagan, ator de segunda em Hollywood que virou político e, antes de ser presidente, governou a Califórnia, muita gente temia que, na Casa Branca, seria a verdadeira besta do apocalipse.
Que nada. Era um republicano igual a tantos outros republicanos que passaram pela Casa Branca e guerrearam como todos os impérios costumam guerrear.
Trump também quer guerrear como todos os impérios costumam guerrear, mas ele não é um republicano igual a tantos outros republicanos que passaram pela Casa Branca.
Ele é muito pior. Muito mais perigoso. Ele não está nem aí para uma mínima noção de respeito à soberania das nações e seus povos. Ele não está nem aí para o direito internacional. Ele não tem qualquer respeito pelos organismos internacionais.
Nesta terça-feira (20), Trump faz 1 ano de governo. Faltam mais 3. Ou 7, se ele conseguir o terceiro mandato que a Constituição dos EUA não permite. Rasgar a Constituição não é da tradição democrática americana, mas, pelo mundo, de vez em quando rasgam.
Trump faz 1 ano de governo, e o mundo testemunha impotente as suas ameaças e a sua imprevisibilidade. Que acabe logo esse pesadelo. É preciso um mundo sem Trump.