ideologia virou detalhe na Assembleia
As mudanças de partido feitas por deputados estaduais demonstram que a ideologia virou mero detalhe no cálculo político de quem busca a reeleição na Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB). Ao todo, foram 19 mudanças. A maioria, em nome da sobrevivência.
Os últimos dias da chamada “janela partidária” (período que permite a troca de siglas sem a perda do mandato) revelaram um verdadeiro “leilão”, em que a moeda de troca passou longe das convicções políticas. A sobrevivência falou mais alto e a lógica do “quem dá mais” parece ter orientado as decisões dos deputados nas negociações com dirigentes partidários.
São movimentações “legais” do ponto de vista técnico, mas que levantam questionamentos sobre a real adesão às cartas programáticas dos partidos. São movimentos que esvaziam convicções políticas, enfraquecem a confiança do eleitor e, por consequência, fragilizam a democracia.
Algumas trocas não surpreenderam tanto, pois ocorreram dentro do mesmo espectro político. São os exemplos de parlamentares tucanos que deixaram o PSDB pelo MDB (Camila Toscano, Tovar Correia Lima e Fábio Ramalho). No máximo, ferem arranjos locais, mas não as ideias centrais desses agentes políticos, pois são partidos historicamente próximos no plano ideológico.
É a mesma lógica das mudanças de George Morais (do União Brasil para o PL), Felipe Leitão (do Republicanos para o MDB) e de Michel Henrique (do Republicanos para o PP). Todos buscam sobreviver politicamente, mas são trocas que, em tese, não rompem com o campo de ideias em que esses parlamentares já estavam inseridos.
Por outro lado, como explicar o movimento do deputado Tanilson Soares, que deixou o PSB (Partido Socialista Brasileiro) pelo MDB? Como deixar de se identificar com um campo político dito “socialista” de um dia para o outro? Dois dias antes da mudança, aliás, em entrevista coletiva, o deputado afirmou que ainda estava “em negociação” com partidos sobre sua filiação.
O PSB, aliás, foi um dos partidos mais fragilizados com essa janela partidária, em virtude da inconsistência de sua nominata e da fragilidade de sua liderança. Como explicar que quatro parlamentares “socialistas” migraram para legendas do Centrão, como Republicanos e Progressistas? Ou nunca foram socialistas de fato?
O deputado Eduardo Brito fez o caminho contrário. Deixou o Solidariedade, do Centro, para aderir ao socialismo do PSB.
O que dizer sobre a decisão do deputado Dr. Romualdo, que deixou o MDB para o PC do B? Apesar de ter uma linha de atuação progressista em algumas pautas, ele porventura aderiu às ideias comunistas do novo partido de uma hora para outra? Já compartilhava dessas convicções antes? É uma mudança questionável do ponto de vista da coerência ideológica.
O mesmo pode ser dito do deputado Luciano Cartaxo, que embora tenha um mandato pautado pela proposição de pautas de interesse público, deixou o PT para se filiar aos quadros do Republicanos, intitulado de “o partido mais conservador do Brasil”. Não há nada de errado, aliás, em ser conservador. Mas é preciso ser claro em relação ao que se defende.
Embora seja um mecanismo democrático, que permite a deputados mudarem de partido para evitar constrangimentos em caso de distorções internas, a janela partidária acabou se transformando em um espaço de acomodação de interesses pessoais. Onde a ideologia, que é essencial no debate público, virou peça de museu.
Essa lógica precisa mudar. Um critério jurídico mais claro sobre a identidade programática dos partidos deveria ser discutido para que essas trocas façam o mínimo de sentido dentro do jogo político. Por enquanto, cabe ao eleitor cobrar mais transparência de seus candidatos na hora de definir o voto.