Juca de Oliveira foi protagonista de contundente denúncia contra a tortura
Houve um tempo em que, na Paraíba, o governo estadual tinha um cinema. Dirigido pelo fotógrafo João Córdula, o Cinema Educativo pertencia à Secretaria da Educação, que, à época, era Secretaria da Educação e Cultura.
A sala era climatizada e tinha um equipamento de projeção de 16 milímetros. Foi lá que vi, entre tantos outros filmes, Brinquedo Proibido, de Clement, Atirem no Pianista, de Truffaut, Viver a Vida, de Godard, e O Açougueiro, de Chabrol.
Aprendi muita coisa nas aulas absolutamente informais que João Córdula me dava. Ao final, o aluno, às vezes espectador único, era brindado com a exibição de um filme.
Lembrei do Cinema Educativo por causa da morte de Juca de Oliveira. O ator morreu no sábado passado, 21 de março de 2026. Estava com 91 anos.
Em 1967, Juca de Oliveira e Raul Cortez foram os protagonistas do filme O Caso dos Irmãos Naves, dirigido pelo cineasta paulista Luís Sérgio Person. Dois anos antes, Person se notabilizara pela realização de São Paulo, Sociedade Anônima.
Em 1967, eu não tinha idade para ver O Caso dos Irmãos Naves no cinema. O filme, extremamente violento, era proibido para menores de 18 anos. Só fui vê-lo uns seis anos depois numa daquelas sessões solitárias no Cinema Educativo.
Foi assim. João Córdula me perguntou: “Camaradinha, quer ver O Caso dos Irmãos Naves?”. Eu disse que sim, e ele disse: “Estou com uma cópia em 16 milímetros”.
O Caso dos Irmãos Naves é um dos grandes filmes brasileiros de todos os tempos. Dois filmes, aliás, são o extraordinário legado de Luís Sérgio Person: O Caso dos Irmãos Naves e São Paulo, Sociedade Anônima. Person morreu aos 39 anos.
Juca de Oliveira e Raul Cortez eram os irmãos Naves. A história, verdadeira, é do tempo do Estado Novo. Os dois irmãos foram presos em Minas Gerais, e, sob tortura, foram obrigados a confessar um crime que não haviam cometido.
Luís Sérgio Person falava sobre o presente contando uma história do passado. E abordava o tema da tortura num momento em que esta era praticada pela ditadura militar.
Juca de Oliveira e Raul Cortez eram dois gigantes da dramaturgia brasileira. Grandes nomes de uma geração que se fez no palco dos teatros, mas que precisou da televisão, mais até do que do cinema, para a conquista da popularidade.
A morte de Juca de Oliveira me trouxe a lembrança da primeira vez em que pude vê-lo atuando. Foi em 1969. Ele era o protagonista da telenovela Nino, O Italianinho, da Tupi. Nino teve a difícil tarefa de suceder o sucesso popular de Antônio Maria.
Em Nino, O Italianinho, Juca de Oliveira contracenava com Aracy Balabanian e Bibi Vogel. A trama se passava no Bexiga, reduto de imigrantes italianos em São Paulo.
Em 1973, Juca de Oliveira foi para a Globo. Em O Semideus, de Janete Clair, contracenava com Tarcísio Meira, Glória Menezes, Yoná Magalhães e Francisco Cuoco.
Juca de Oliveira foi um ator imenso e um cidadão comprometido com causas nobres, como a luta ambientalista. Juca foi signatário do manifesto Amazônia para sempre, lembrado em comovido depoimento que Christiane Torloni deu ao sabor da morte do colega.
Estive com Juca de Oliveira somente uma vez, durante uma entrevista na TV Cabo Branco. Não resisti. Nos bastidores, pedi que contasse um episódio do tempo da ditadura. Juca escondeu em casa o físico nuclear Mário Schenberg para evitar que este fosse preso.
O curioso era que Juca de Oliveira retratava Mário Schenberg como um cara ranzinza. Com aquela voz e aquele sorriso irresistíveis que víamos nas telenovelas, ele se “queixava” do amigo sem perder a ternura. Juca de Oliveira foi um grande brasileiro.